A manobra que ninguém pediu
“A Marinha americana leva navios de guerra para um barril de pólvora e declara a rota aberta. Teerão está a reforçar a sua capacidade de minagem. Ambos os lados estão a preparar o leito marinho para a próxima fase, e nenhum parece interessado em desescalar.”
A 11 de junho, o Comando Central dos Estados Unidos anunciou que dois dos seus navios de guerra haviam atravessado o estreito de Ormuz 17. O Pentágono enquadrou o trânsito como operações rotineiras de liberdade de navegação. Contudo, nada no estreito tem sido rotineiro desde fevereiro, quando Israel e os EUA lançaram ataques aéreos contra o Irão, levando Teerão a fechar a hidrovia e mergulhar os mercados energéticos globais no caos 12811. Múltiplas fontes relatam que embarcações militares americanas fizeram agora passagens repetidas por águas que o Irão afirma controlar 345910121417. O que Washington apresenta como afirmação do direito internacional, Teerão — e grande parte do Golfo — vê como provocação deliberada.
O que está em jogo é difícil de exagerar. O estreito de Ormuz transporta cerca de um quarto a um terço do petróleo marítimo mundial e um quinto do seu gás natural liquefeito 10. Quando o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão afastou navios no final de fevereiro, o tráfego de petroleiros colapsou aproximadamente 70 por cento em poucos dias 781121. O Brent disparou acima dos 126 dólares por barril 1, e analistas citados pela FAO preveem agora efeitos em cascata nos preços alimentares globais 12. Mais de 2.000 navios — transportando cerca de 20.000 marítimos — permanecem retidos no Golfo Pérsico desde abril 1015. Esta é a maior perturbação no fornecimento energético global desde a década de 1970 813. Para este barril de pólvora, a Marinha americana leva navios de guerra e declara a rota aberta.
Minando o futuro
A Reuters relata que o Irão está a reforçar a sua capacidade de minar o estreito 19, uma afirmação ecoada por fontes que monitorizam imagens de satélite 320. Os militares americanos declararam publicamente que estão a "criar condições" para limpar minas 22, linguagem que no jargão do Pentágono habitualmente precede ação cinética e não abertura diplomática. A Axios, citada pela agência ucraniana RBC, avalia que as forças iranianas expandiram significativamente a sua infraestrutura de minagem ao longo da passagem estreita 19. Nenhum dos lados parece interessado em desescalar; ambos estão a preparar o leito marinho para a próxima fase.
Washington insiste que está a defender a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que garante passagem de trânsito através de estreitos internacionais 15. Mas a capacidade iraniana de perturbar o transporte marítimo — seja através de encerramento, portagens seletivas ou ataque direto — já foi demonstrada. Segundo a compilação de incidentes da Wikipedia, o Irão lançou 21 ataques confirmados a navios mercantes entre o final de fevereiro e meados de março 613. A 18 de abril, forças iranianas abriram fogo contra pelo menos dois navios que tentavam a passagem 10. No dia seguinte, o presidente Trump afirmou que fuzileiros navais americanos haviam apreendido um navio de carga com bandeira iraniana a tentar contornar o que chamou de "bloqueio naval" americano 102324. A terminologia importa: um bloqueio é ato de guerra segundo o direito internacional. Se essa é de facto a política americana, o Congresso não foi informado, muito menos consultado.
Liberdade de quem, navegação de quem?
Os factos disputados concentram-se em intenção e consequência. Os EUA afirmam estar a defender o princípio da livre navegação. O Irão contrapõe que está a responder a uma guerra de agressão ilegal lançada em fevereiro. Ambas as afirmações têm substância. Os ataques iniciais israelo-americanos, amplamente relatados como tendo incluído o assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei 17, violaram a soberania iraniana sob qualquer leitura da Carta da ONU. O encerramento do estreito pelo Irão, porém, penaliza não Washington ou Telavive, mas toda a economia global — incluindo estados que não tiveram mão na operação de fevereiro 210.
A Índia, por seu lado, foi nomeada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão como "nação amiga" autorizada a transitar pelo estreito 25, uma designação que ilustra perfeitamente como a aplicação seletiva transforma um direito universal num favor geopolítico. A Organização Marítima Internacional relatou que aproximadamente 20.000 marítimos e 2.000 embarcações estão presos pelo encerramento 2. As suas nacionalidades abrangem dezenas de bandeiras; as suas cargas incluem não apenas petróleo mas alumínio, fertilizantes e hélio 911. A BBC nota que qualquer novo encerramento reverberará tanto pelos mercados energéticos como pelas cadeias de abastecimento alimentar 4. Contudo, a resposta americana — fazer navegar destroieres por águas contestadas — não aborda nenhuma destas preocupações. Simplesmente adiciona pressão militar a uma mistura já incendiária.
A lógica da escalada
Qual é, então, a teoria de vitória de Washington? Se o objetivo é dissuadir ataques iranianos ao transporte marítimo, a evidência sugere fracasso: o Irão atacou embarcações repetidamente desde que a crise começou 61013. Se o objetivo é tranquilizar aliados do Golfo, a presença de navios de guerra americanos numa zona de potencial combate aumenta, em vez de diminuir, o seu risco. Se a intenção é coagir Teerão a reabrir o estreito, quatro meses de manobras militares não o conseguiram — embora o Irão tenha brevemente anunciado uma reabertura em abril, apenas para retomar a aplicação em poucos dias 1020.
A interpretação mais caridosa é que o Pentágono acredita que a presença naval visível acabará por compelir o Irão a negociar, ou pelo menos a permitir o transporte marítimo neutral. A leitura menos caridosa é que Washington está a sinalizar determinação a audiências domésticas e parceiros regionais sem uma estratégia coerente para o que vem a seguir. De qualquer modo, a questão tática permanece: o que acontece quando um destruidor americano encontra uma mina iraniana, ou uma lancha rápida dos Guardas da Revolução, ou um míssil anti-navio baseado em terra? O estreito tem 21 milhas de largura no seu ponto mais estreito. Não há margem para erro de cálculo, e ambos os lados apostaram reputações em resultados que não podem controlar completamente.
A Reuters relata que uma votação do Conselho de Segurança da ONU sobre uma resolução para Ormuz é iminente, com a China a opor-se a qualquer autorização de força 14. Essa votação provavelmente esclarecerá muito pouco. O que já está claro é que as manobras militares americanas, por mais juridicamente justificadas em abstrato, estão a aumentar a temperatura em águas que o mundo não pode dar-se ao luxo de ver incendiar. Vinte e cinco artigos foram publicados sobre este evento nas últimas 24 horas em seis meios distintos [estatísticas do site]. A atenção é justificada. A insistência da marinha americana em afirmar direitos de passagem pode ainda converter um ponto de estrangulamento sufocado numa guerra de tiros.
